E então, doutor: meu xixi tem gosto de quê?

A uroscopia, inspeção da urina para determinar a condição física do paciente, é uma das ferramentas diagnósticas mais antigas. Sua utilização remonta à medicina praticada na Suméria e na Babilônia, cerca de 4000 anos atrás. Praticada por médicos gregos e romanos, a sua utilização chegou à Europa trazida pelos árabes e se tornou parte fundamental do diagnóstico clínico.

O termo uroscopia significa literalmente “observação da urina”. Há vários tratados antigos sobre o tema, mas o texto que teve mais influência na medicina ocidental foi escrito por Theophylus Protospatharius (610-641), chamado De Urinis. Por muitos séculos, autores de textos uroscópicos se referiram a esse texto.

A orientação era para que a urina fosse coletada em 24 horas em um frasco grande e transparente, que deveria ser protegido do calor, do frio e da luz do sol. Esse recipiente era chamado de “matula” e, durante a idade média, tornou-se um símbolo fortemente associado à profissão médica. Muitos médicos, quando contratavam os serviços de pintores para retratá-los, faziam questão de posar com sua matula (à semelhança de muitos médicos e estudantes de hoje em dia que publicam fotos nas redes sociais portando seus estetoscópios pendurados no pescoço).

O médico persa Ismail Sayn al-Din Gorgani (1040-1136) ensinava que os seguintes aspectos deviam ser sistematicamente verificados: a quantidade, a cor, a consistência, a transparência, a presença ou ausência de sedimentos (muito importante no diagnóstico de litíase urinária), a presença de sangue (hematúria), o odor e até o sabor da urina. Dessa prática nasceram as denominações de algumas doenças. Urina em grande quantidade e com sabor de mel, por exemplo, recebeu a denominação de diabetes mellitus. Urina em grande quantidade e sem gosto (que ocorre quando a pessoa não secreta adequadamente o hormônio antidiurético) foi chamada de diabetes insipidus.

Como referência, os profissionais utilizavam uma imagem muitas vezes reproduzida chamada de “A Roda da Uroscopia”, que trazia os diferentes aspectos que a urina poderia apresentar, com os diagnósticos correspondentes.

O ritual de analisar o líquido, entre os séculos XIV e XVI, tornou-se o ponto alto da consulta com um médico europeu. Enquanto o paciente aguardava nervosamente, o doutor alongava o quanto podia o processo de cheirar, olhar contra a luz e provar a urina (processo semelhante ao utilizado pelos enólogos), finalmente emitindo um diagnóstico.

Também à semelhança dos enólogos, alguns uroscopistas desenvolveram habilidades fantásticas. Conta-se a história da adolescente que foi levada à consulta pela mãe desconfiada, com suspeita de gravidez. A temerosa jovem misturou a própria urina com urina de vaca, no intuito de confundir o profissional e este, ao final da análise, declarou: “esta amostra tem urina de uma mulher e urina de vaca; ambas estão grávidas”.

O famoso médico persa Avicena (latinização de Abd Allāh ibn Sīnā) (980-1037) incluiu em sua influente obra “Cânone da Medicina” (texto padrão em muitas universidades medievais) uma seção que ensinava os médicos a diferenciar urina humana daquela de animais, alertando seus estudantes para o fato de que “…líquidos variados são às vezes trazidos pelos pacientes para testar a habilidade do médico”.

A partir dos séculos XII e XIII, a uroscopia passou a ser realizada também por pessoas sem treinamento médico, que viajavam pelas cidades europeias alardeando sua capacidade de fazer diagnósticos, prognósticos e até de prever o futuro (prática chamada de uromancia) da pessoa por meio da análise de sua urina. Alguns desses charlatães angariaram fama e riqueza.

Havia também aqueles médicos que até se abstinham de examinar o paciente, fazendo diagnósticos à distância somente pela observação da urina, que era trazida até ele por um portador especialmente contratado (poderíamos chamá-lo de pipiboy).

O médico de Constantinopla Joannes Actuarius (1275-1328) (obcecado pelo tema, escreveu um extenso tratado de sete volumes chamado “Sobre a Urina”) alertava para o perigo do diagnóstico feito com base apenas na análise da urina, sugerindo que o exame físico era fundamental (perigo que ronda também os médicos modernos, que às vezes se concentram nos exames complementares, em detrimento do contato com os pacientes).

O número crescente de pessoas sem treinamento médico (e sem escrúpulos) que realizavam a uroscopia condenou-a gradativamente a uma condição de descrédito. O livro publicado em 1637 “O Profeta do Mijo” (Pisse Prophet), de Thomas Brian, criticou duramente a prática. Os médicos vistos com uma matula passaram a ser objeto de piadas e do ridículo, o que ajudou a levar a prática da uroscopia, enfim, ao abandono.

Hoje em dia, a análise da urina é parte fundamental da avaliação clínica do paciente, tanto em doenças do trato urinário como em condições sistêmicas. O exame mais frequentemente utilizado é o chamado Urina Tipo I ou EAS (elementos anormais e sedimentoscopia), no qual se verifica: aspecto, cor, o pH, densidade, presença de células, etc.

A presença ou ausência de glicose é verificada por uma análise química.

Felizmente, não precisamos mais verificar o sabor do xixi.

Imagens:

 

  1. O Médico (1653). Gerard Dou (1613-1675). Óleo sobre madeira, 49,3 x 37 cm. Kunsthistorisches Museum, Viena.

 

  1. Roda da Uroscopia da obra Epiphaniae medicorum, 1494, artista desconhecido. Epiphaniae medicorum. Crédito: Wellcome Collection. CC BY.

 

  1. A Uroscopia. Franz Christoph Janneck (1703-1761). Óleo sobre cobre, 31,7 x 22,8 cm. Coleção Fisher no Instituto Franklin, Science History Institute, Philadelphia.

 

Referências:

 

ARMSTRONG, J. A. Urinalysis in Western culture: a brief history. Kidney International, v. 71, n. 5, p. 384-387, 2007.

 

KAMALEDEEN, A.; VIVEKANANTHAM, S. The rise and fall of uroscopy as a parable for the modern physician. The Journal of the Royal College of Physicians of Edinburgh, v. 45, n. 1, p. 63-66, 2015.

 

KIEFER, Joseph H. Uroscopy: The artist’s portrayal of the physician. Bulletin of the New York Academy of Medicine, v. 40, n. 10, p. 759, 1964.

 

STOLBERG, Michael. The decline of uroscopy in early modern learned medicine (1500-1650). Early Science and Medicine, v. 12, n. 3, p. 313-336, 2007.

 

VOSWINCKEL, Peter. From uroscopy to urinalysis. Clinica Chimica Acta, v. 297, n. 1-2, p. 5-16, 2000.

 

FONTE: Texto extraído na íntegra da página do Facebook,  “Histórias Breves de uma Arte Longa”, de Jordano Araújo.

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