Estadão: Entenda como funciona a vasectomia, cirurgia realizada em Jair Bolsonaro

O presidente Jair Bolsonaro, 64 anos, se submeteu, na noite de quinta-feira, 30, a uma vasectomia, procedimento médico de esterilização para homens que não desejam ter filhos biológicos. 

Após passar a tarde em Minas, discutindo providências para as enchentes que assolam o Estado, o presidente desembarcou de volta em Brasília, às 18h, e seguiu para o Hospital das Forças Armadas (HFA) para se submeter à cirurgia.  

Quando saiu do centro médico, antes das 20h30, ele caminhou lentamente até o carro, com um dos braços apoiado sobre um assessor. Ainda em repouso, Bolsonaro se reuniu nesta sexta, 31, no Palácio da Alvorada, com os ministros Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional) e Jorge Oliveira (Secretaria-Geral). Ao deixar o local, Heleno afirmou que a condição de saúde do presidente “está ótima”. 

É a segunda vez que Jair Bolsonaro passa pela cirurgia. A primeira ocorreu após o nascimento de seu quarto filho, Renan Bolsonaro, de 22 anos. Depois, ele desfez a vasectomia para que a sua mulher, Michelle Bolsonaro, pudesse engravidar de Laura, hoje com nove anos de idade.

Ao Estado, o médico Danilo Galante, membro da Sociedade Brasileira de Urologia, explica que são poucos os casos nos quais um homem faz duas vasectomias. “Apesar de não trazer danos à saúde, uma segunda vasectomia aumenta o risco de dor crônica, pois é a terceira cirurgia que está sendo feita no órgão”, afirma.

Galante destaca ainda que, para evitar complicações, o paciente deve ficar 10 dias sem ter relações sexuais e 15 dias sem fazer exercício físico. O esforço antes da hora pode levar a um aumento da pressão arterial, causando o risco de rompimento de veias do testículo e, consequentemente, sangramentos e hematomas na região. 

Leia abaixo perguntas e respostas sobre a vasectomia respondidas pelo urologista Danilo Galante. As questões abordam desde possíveis riscos e cuidados até questões estéticas. Confira:

Como se dá a vasectomia?

Ela ocorre pelo corte dos ductos deferentes, que conduzem os espermatozoides produzidos nos testículos para serem misturados com o sêmen. O médico interrompe esse fluxo tirando um fragmento pequeno de cada um desses canais. Pode ser feito um corte de cada lado do escroto, de cerca de um centímetro e meio, ou um corte único no meio dele, para ter acesso aos dois lados com uma só abertura. A operação é de baixíssimo risco e leva cerca de 40 minutos.

A vasectomia é realizada só em hospital?

Não. Ela pode ocorrer tanto em ambiente hospitalar, com sedação geral, quanto em consultório, com anestesia local. As técnicas e o tempo de cirurgia são os mesmos. A diferença é que no consultório o paciente fica acordado e pode sentir algumas puxadas na região operada. Homens com doenças crônicas de risco cirúrgico, como as de coração e respiratórias, idosos com mais de 60 anos ou os com pavor de agulha devem fazer no hospital. 

Qual é a idade recomendada para fazer a vasectomia?

Não existe essa restrição. A legislação brasileira permite a cirurgia em homens com capacidade civil plena e maiores de 25 anos ou, pelo menos, com dois filhos vivos. A idade não faz muita diferença nos efeitos.

A vasectomia causa alguma mudança nos hormônios do homem?

Não. A vasectomia não muda em nada a parte hormonal, a sensibilidade do pênis e a ereção. A consequência direta é a diminuição do volume ejaculado em 30% a 40%. Além disso, o sêmen fica mais transparente e menos viscoso, porque o que dá a aparência esbranquiçada é o espermatozoide.

E afeta na estética?

Não muda o tamanho do testículo, não atrofia, nem nada. Vale dizer também que a cicatriz costuma sumir, porque o saco escrotal é uma região do corpo com boa cicatrização. Mesmo se não cicatrizar, o que é difícil, a pequena marca que fica se esconderia entre as dobras da bolsa escrotal. Nunca vi paciente se incomodar ou pedir plástica.

A vasectomia é um método contraceptivo totalmente confiável?

A taxa de confiança da vasectomia é 99,95%. Para o operado atingir esse índice, ele deve ficar 10 dias sem ejacular após a cirurgia. Depois desse período, ele precisa colher 20 ejaculações que servirão de amostra no exame de espermograma, que serve para averiguar o sêmen do homem infértil.

Na primeira análise, só dois a cada cem pacientes apresentam um material sem resquícios de espermatozóides. Então, pedimos uma nova coleta para, a partir dela, a vasectomia garantir o grau de confiabilidade desejado.

Com qual tipo de médico pode fazer uma vasectomia? E a reversão?

A primeira pode ser realizada com um cirurgião geral ou urologista. Já a outra deve ocorrer com o urologista ou com um médico especializado em infertilidade. Entretanto, aconselho que o homem faça a vasectomia com um profissional que trabalhe com a reversão, porque os que que não sabem reverter geralmente não se preocupam com a possibilidade de o paciente voltar atrás. 

Então ele tende a fazer procedimentos que dificultam a reversão, como tirar três centímetros do ducto em vez de meio centímetro. Isso faz com que os cochos fiquem muito distantes um do outro. É como cortar dois barbantes [presos em extremidades diferentes] e não conseguir reaproximá-los. 

Qual é mais confiável: vasectomia ou laqueadura?

Ambos têm a mesma eficiência. A questão é que a cirurgia na mulher precisa, obrigatoriamente, de anestesia geral e é mais invasiva, pois os ovários estão dentro do abdômen enquanto os testículos estão para fora do corpo.

As taxas de complicação, dor e sangramento no homem são menores.

Quais cuidados devem ser tomados no pós-operatório?

O paciente deve ficar 10 dias sem ter relações sexuais, 15 dias sem fazer exercício físico e sete sem atividades que aceleram o coração. Esse último porque pode haver o aumento da pressão arterial, causando o risco do rompimento de veias do testículo e, consequentemente, sangramentos e hematomas na região. 

A maioria dos pacientes não reclama de nada depois de dez dias. A principal queixa é a sensação de peso na região do escroto.

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